APRESENTAÇÃO
Há autores cuja escrita se lê; e há autores cuja escrita se ouve. Rogério Cão pertence a esta segunda espécie rara. A sua poesia tem uma voz própria — não a voz biográfica, reconhecível por quem o conhece, mas a voz autoral, aquela que nasce do encontro entre a palavra e o abismo interior de quem a escreve. Uma voz que não precisa de palco, microfone ou edição: ela existe por si, vibra por si, ecoa por si.
Em Funeral para uma Boneca de Trapos, essa voz manifesta‑se com a intensidade que lhe é característica: feroz e frágil, luminosa e sombria, feita de latido e de silêncio. O nome que escolheu — Cão — não é mero artifício literário; é um manifesto. Um cão ululante, magro, tétrico, coruscante, como no poema de Alexandre O’Neill. Um cão que se desfaz num ganido e se refaz num latido. Um poeta que escreve como quem uiva para a noite, embriagado de vinho, de poesia ou de pura vertigem.
A poesia de Rogério Cão circula antes de ser publicada. Corre pelas ruas, pelos bares, pelos palcos improvisados onde tantas vezes se faz acompanhar por músicos, em especial por Tércio Nanook. É uma poesia que se dá a ouvir — mesmo a quem nunca o ouviu. Uma poesia que chega primeiro ao ouvido e só depois ao entendimento.
Este livro é, por isso, mais do que um conjunto de poemas: é um ritual de passagem, um velório simbólico, uma despedida e uma reinvenção. Um funeral que não encerra, mas abre. Uma boneca de trapos que, ao cair, revela o corpo vivo da palavra.
Se querem ouvir a verdadeira voz de Rogério Cão, não precisam de o imaginar a declamar pelas ruas desertas. Basta seguirem em frente, abrirem estas páginas e deixarem que a poesia vos conduza. O resto é viagem.
Desejo‑vos boa travessia.
Autor: Rogério Cão









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